
por Fernando Labanca
Tenho percebido que o público tem encarado, de longe, o filme com um certo preconceito. Muitos já o acusam de ser clichê e previsível somente pelo trailer. O garoto desajustado que se apaixona pela vizinha, que é inclusive, muito popular no colégio. Os adolescentes norte-americanos que tanto conhecemos e já estamos cansados de ver. Sim, ele foi vendido como "mais do mesmo". Por isso é tão bom chegar ali, no cinema e se deparar com algo maior, se surpreender pela forma como o roteiro consegue escapar dessas previsibilidades. Li o livro e fiquei feliz em saber que os responsáveis pela adaptação foram Scott Neustadter e Michael H.Weber, que já mereciam todo o respeito por obras como "500 Dias Com Ela" (2009) e "O Maravilhoso Agora" (2013). Aqui, eles realizam mais um excelente trabalho, compreendem o que é ser jovem, entregam beleza à adolescência e aos tempos que passaram. Nos fazem sentir falta de uma época que adorávamos odiar, o colégio. Trata-se de um produto extremamente simples, leve, teen, mas que ganha pontos por esta vibe saudosista que insere em sua trama, pela nostalgia que nos traz.
Quentin (Nat Wolff) está prestes a se formar no colégio, mas antes que isso aconteça, um grande evento surge à janela de seu quarto, o chamado para uma inesquecível aventura. Margo Roth Spiegelman (Cara Delevingne). Sua paixão platônica desde criança e sua vizinha o convoca para participar de uma plano mirabolante de vingança, envolvendo seu ex-namorado. Desde sempre, ela adorava um bom suspense e mistério, se tornando uma adolescente excêntrica e um tanto quanto enigmática. O sonho de Quentin sempre foi poder participar de seus planos e o evento inesperado que os uniu passa a ser a esperança de uma vida diferente para o jovem, o que ele não esperava, no entanto, é que Margo se tornaria o próprio mistério, desaparecendo do lugar que ela mesma denominou de Cidade de Papel. Decidido a reencontrá-la, Quentin, com a ajuda de seus dois melhores amigos, Ben (Austin Abrams) e Radar (Justice Smith), passa a seguir uma série de pistas sobre o paradeiro de Margo. É nesta jornada que ele começa a compreender que o mito que ele mesmo criou sobre sua deusa possa não existir e que os planos dela podem ser bem diferentes dos seus.
"Cidades de Papel" acerta neste olhar saudosista sobre a adolescência. Por isso vejo que terá muito mais impacto naqueles que já vivenciaram a época do que aqueles que estão vivenciando agora. É um pouco sobre as últimas vezes, as últimas aulas, as últimas festas e encontros. Parece que existem momentos que serão vividos apenas na juventude, é então que vemos seus personagens embarcando naquilo que seria algo como "última chance" de fazer tudo certo. É sutil, mas encanta, ainda mais quando temos Quentin como protagonista, aquele que fez tudo seguindo suas próprias normas e sua busca por Margo, numa fase onde deveria estar vivendo seus instantes finais, ele passa a vivenciar a primeira vez de muitas coisas. É quase como um road movie, e como um bom exemplar do gênero, "Cidades de Papel" é também sobre descobertas e amadurecimento, e como consequência disso, é sobre as primeiras grandes desilusões. E este é maior acerto da história, embarcamos em suas aventuras acreditando no final feliz. Sim, é um feel good movie, mas inova ao não ser tão previsível, entregando o fim que o protagonista merece e não o que provavelmente todos esperam, e isso é fantástico, simplesmente porque poucos filmes destinados a jovens tem essa coragem. É sobre frustrações mas é também como às vezes as coisas se acertam através das linhas tortas. Quentin vai atrás de um sonho, deste mito chamado Margo que ele mesmo criou, no entanto, uma pessoa é mais do que uma pessoa, criamos nos outros aquilo que queremos que eles sejam e isso, inevitavelmente, gera decepções.

Poucas vezes cheguei a essa conclusão, mas "Cidades de Papel" é uma rara exceção entre as adaptações literárias, conseguiu o feito de ser melhor que o próprio livro. Há algumas alterações, detalhes que o tornaram melhor, mais coerente, mais objetivo, e muito mais interessante. Seu final é a prova das ótimas escolhas que os roteiristas tiveram, vai além das páginas, consegue ser mais profundo e até, surpreendentemente, mais comovente. Como eu gostei deste final! Confesso que a trama nem tem o melhor dos desenvolvimentos, mas acaba entregando um fim tão digno que faz todo o seu decorrer valer a pena. Digo que foi um final mais justo para Quentin e para Margo. Foi bom de ver, foi bonito, foi sincero. E juntando suas excelentes ideias com a boa direção de Jake Schreier, mais a fantástica trilha musical, que funde muito bem suas batidas eletrônicas com todo o charme oitentista da obra, vemos aqui um trabalho que remete, sim, aos filmes para adolescentes mais antigos e isso é incrível. Além de tantas qualidades, acredito que seja uma obra que ao seu término deixa grandes reflexões. Todos temos potencial para sermos espetaculares, pois mesmo que sejamos simples e reles mortais, não deixamos de vivenciar pequenos e memoráveis eventos. Nossos milagres são os pequenos instantes da vida, aqueles eternizados em nossas memórias e que quando olhamos para trás compreendemos que tudo valeu a pena. Geralmente percebemos esses milagres assim que deixam de existir. Como seria incrível se déssemos conta de tudo isso, da grandeza e infinitude de tudo isso, no momento em que acontece. "Cidades de Papel" em suma, é isso, uma celebração às boas lembranças e tudo aquilo que é digno de saudade. Dê uma chance ao filme, pois definitivamente, você será recompensado.
NOTA: 8,5
País de origem: EUA
Duração: 109 minutos
Distribuidor: Fox Filmes
Diretor: Jake Schreier
Roteiro: Michael H.Weber, Scott Neustadter
Elenco: Nat Wolff, Austin Abrams, Justice Smith, Cara Delevingne, Halston Sage
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